sáb. nov 17th, 2018

Cresce número de gays que apoiam Bolsonaro e rejeitam Jean Wyllys

Engana-se quem acha que toda a comunidade GLBT brasileira detesta o deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ), figura notória por declarações polêmicas que muitas vezes bate de frente com causas defendidas pelo seu arqui-inimigo, o deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ), o pretenso escudeiro dos gays no Congresso.

Nas redes sociais cresce um movimento influente entre os gays de apoio a Bolsonaro. Uma busca no Facebook revela dezenas de páginas com os termos “gay de direita” ou “gays por Bolsonaro” e pessoas como o paulistano Clóvis Smith Hays Júnior, de 28 anos, com seus 34 mil seguidores, posta vídeos e mensagens em sua página contra a chamada agenda LGBT, o “kit gay” e as “feminazis”, e elogia Trump e o capitalismo.

Conteúdos semelhantes ao compartilhado por Hays proliferam em comunidades gays na internet desde as eleições de 2014, em contraposição ao que consideram uma predominância de “pensamentos de esquerda” no movimento LGBT.

“Apoiaria Bolsonaro para 2016 se fosse possível. É preciso fazer uma reviravolta nesse país. Não acho que se escolhe um presidente porque se gosta ou não da sexualidade alheia, mas porque ele é bom ou não”, diz Junior Oliveira, de 31 anos, membro de uma destas comunidades no Facebook.

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Smith Hays: 34 mil pessoas seguem o “gay de direita”. (Foto: Reprodução / BBC Brasil)

A posição conservadora de Bolsonaro diante de assuntos polêmicos como o porte de armas por civis ou a pena de morte para crimes hediondos tem encontrado simpatia e justificado o apoio de muitos homossexuais. “Defendo a castração química em caso de estupro e o porte de armas. Pena de morte…por que não? Por que uma pessoa não pode fazer um crime brutal e pagar com a própria vida? Temos leis muito brandas nesse país”, diz Junior.

Bolsonaro, autor de declarações infames como “ter filho gay é falta de porrada” ou “gays são fruto do consumo de drogas”, parece ter ganho admiração ao invés de repúdio em uma parcela da comunidade GLBT que ataca: segundo seus defensores, o deputado já teria revisto suas posições e ganho o perdão por recompensa.

“Ele já se retratou. Pensava que gays eram todos do mesmo tipo, mas viu que há gays casados, que pagam impostos e têm um relacionamento sem afrontar a sociedade”, diz o artista plástico Leonardo Estellita, de 32 anos, coordenador do Movimento Brasil Livre na Região dos Lagos, no norte do Estado do Rio.

“Não vejo como contradição apoiá-lo. O Bolsonaro prega o respeito à diferença. Mas ele ainda precisa ser lapidado, como aconteceu com o Lula ao longo de quatro eleições.”

No entanto, em cena da série documental Gaycation, do canal Viceland, divulgada neste ano, o deputado disse que a homossexualidade é “comportamental” e voltou a relacionar esta orientação sexual e o consumo de drogas.

“Com o passar do tempo, com as liberalidades, as drogas e as mulheres trabalhando, aumentou bastante o número de homossexuais”, afirmou à atriz americana Ellen Page.

O que se percebe neste movimento gay de apoio a Bolsonaro não é a exacerbação do Complexo de Estocolmo, onde o agredido se apaixona por seu carrasco. Trata-se, muito além, de gays combatendo o próprio ativismo e a inegável distorção esquerdista que ganhou nos últimos tempos, tirando o foco da causa para lutas partidárias.

“É inaceitável que as pessoas se orgulhem de um homossexual vestindo uma camisa de Che Guevara. Como a gente pode elogiar um cara que detestava homossexuais? Partidos de esquerda apoiam a Rússia e a Coreia do Norte, que perseguem homossexuais. É um discurso contraditório”, diz Leonardo Estellita.

A rejeição a Jean Wyllys como representante por parte destas pessoas se estende também ao movimento LGBT como um todo. A militância é descrita por eles como “intolerante” e “promíscua”. Quem não quer participar do grupo é segregado, dizem. “Quem na verdade está fazendo o discurso de ódio é essa minoria dentro do movimento. Apontam o dedo para gays que lidam com a situação de outra maneira. Se você não levanta bandeiras, não vai ser um deles”, diz Eller. Lucas Lopes, criador da comunidade Gay de Direita, Gay Direito, que tem 2 mil membros no Facebook, menciona a “falta de foco” dos ativistas. “Lutas LGBTs talvez algum dia serviram para alguma coisa, mas hoje não tem necessidade disso. Uma parada gay hoje só tem promiscuidade, são pessoas se beijando no meio da rua, fazendo sexo.” Dono do blog Minha Vida Gay, que soma um milhão de acessos desde a sua criação, em 2014, o empresário Flávio Yuki diz que seus leitores reclamam da “pressão dos gays de esquerda”. “Já ouvi no blog que os gays de esquerda estão muito chatos, muito radicais, e as pessoas começam a gostar do Bolsonaro.”

As mulheres homossexuais também estão embarcando nesta onda Bolsonarista, uma prova que o fenômeno espalha-se como micro explosão dentro do universo GLBT, com previsão de tornar-se um furacão. Karol Eller, de 29 anos e 250 mil seguidores em sua página no Facebook, funcionária de uma empresa de viagens e promotora de eventos, que também diz repudiar as atitudes de Wyllys, dispara: “Ele não representa a classe e nunca me representou. Uma das ações mais feias foi quando cuspiu num parlamentar. Quer chamar a atenção dos homossexuais.”

Os pesquisadores estão atentos ao que ocorre no mundo GLBT. Adla Teixeira, professora da faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pesquisadora sobre gênero e sexualidade, existe mesmo um autoritarismo dentro da militância gay de esquerda, equiparado ao radicalismo religioso. segundo Adla, o autoritarismo começa com a cobrança de que todos devem sair do armário e assumir publicamente sua sexualidade, o que desagrada uma grande parcela de homossexuais que não querem envolver-se com militância ou exposição. Richard Miskolci, professor de Sociologia da Universidade Federal de São Carlos (UFScar) e pesquisador do Núcleo de pesquisa em Diferenças, Gênero e Sexualidade, não vê autoritarismo no movimento LGBT.

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Deputado Jean Wyllys: militância autoritária estaria afastando homossexuais. (Foto: Reprodução / Tubo 1)

“Usar esse adjetivo é uma estratégia da direita de atribuir a seus inimigos suas piores características. Como um político vinculado à ditadura militar e que defende torturadores pode considerar ‘autoritário’ um defensor dos direitos humanos? Como movimentos nascidos da democratização poderiam ser autoritários?”   Ao que parece, este assunto ainda vai despertar debates acalorados, mas, de certo, temos um movimento dentro do movimento que se aproxima de Bolsonaro e deixa a esquerda de cabelos em pé.  Das duas, uma: ou a direita assimilou um discurso típico da esquerda para atrair ‘fiéis’ ou a esquerda desiludiu seus ‘fiéis’ a tal ponto que estes foram buscar consolo nos braços de quem os abominava. A ver os próximos capítulos…

 

Foto destacada: Reprodução / Internet

Com informações de BBC Brasil

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