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Celular, música e TV: cuidado com conteúdos ruins para crianças

Especialistas alertam que letras de músicas têm influência negativa na formação dos pequenos, e uma das consequências é a sexualidade precoce.

A música relaxa, anima, traz boas lembranças e pode até ser usada de forma lúdica, mas dependendo do estilo e da mensagem que passa, é capaz de estimular de forma negativa, especialmente as crianças, que ainda estão em processo de formação. As letras explícitas e vulgares tratam a mulher como objeto sexual, e são inúmeras nessa linha, considerada inadequada por especialistas na área da educação e da psicologia. São músicas que têm caído cada vez mais no gosto de adolescentes e crianças, deixando pais e profissionais apreensivos.

Sucesso entre os fãs do estilo, o conteúdo das composições está disponível em casa, na escola, no transporte escolar, na rua, no rádio, na internet, na casa do vizinho. São letras que despertam a sexualidade precoce pelo sentido dúbio e pelo ritmo sensual; outras têm conteúdo escancarado, que deixam muitos pais escandalizados.

“Tenho a consciência de que cada um tem a liberdade de ouvir o que gosta, mas me sinto insultada cada vez que um vizinho, por exemplo, escuta em alto e bom som esse tipo de música. Para quem tem crianças em casa, como eu, o receio dessa má influência é maior”, considerou a confeiteira Sandra Felinto, mãe de Guilherme, 12, que tem acesso ao celular desde pequeno, e Isabella, 2 anos, que assiste a vídeos infantis sob a supervisão dos pais.

Assim como eles, as crianças cada vez menores têm contato com celulares e acessam, muitas vezes sem a vigilância de um adulto, conteúdos impróprios para a idade. Mas, o problema não está só nos aparelhos que abrem as portas para o mundo. Nas festas infantis e de adolescentes, o repertório, que outrora trazia canções ligadas ao universo infantil, é composto pelos sucessos do momento com suas letras nada ‘inocentes’.

Para especialistas na área de educação e psicologia, a exposição a esses conteúdos pode interferir na formação das crianças. Elas podem até não ouvir em casa, mas não há como não ter contato. Cantam, dançam e, sem qualquer malícia, na maioria das vezes, fazem gestos obscenos que nada condizem com a inocência própria da idade.

Influência começa no berço

A música começa a ter influência no ser humano desde o berço. Mais: ainda na barriga da mãe, é possível usar a música como forma de interação. A psicopedagoga Meire Santos destacou que é importante lembrar como a música exerce um encantamento no ser humano.

“Quando a mãe canta para fazer o bebê dormir ou para confortá-lo em um momento de choro, por exemplo, tem um efeito calmante. Mas, o problema não está apenas nas letras e sim, nas emoções que ela provoca, na forma como dançam, estimulando o erotismo e a vulgaridade. O efeito pode ser o desenvolvimento de uma vida sexual precoce, o que trará uma série de consequências negativas na vida da criança”, analisou.

Além disso, segundo ela, as músicas também fazem apologia à violência, às drogas. “A grande preocupação como mãe e educadora se justifica porque essas músicas têm sido introduzidas no dia a dia da criança como algo natural, em um momento de formação da sua personalidade, no qual elas estão buscando justamente referenciais para a vida”, observou.

Informações inadequadas para universo infantil 

Desde cedo, a criança está diante da televisão, tornando-se assim um receptor ativo por meio de tanta informação. Alguns pais deixam a criança escolher o desenho, mas esquecem de fiscalizar para saber se é adequado à idade dela, já que os conteúdos expostos diariamente são muito avançados.

“O que não podemos esquecer é que o desenvolvimento infantil possui etapas únicas, capazes de diferenciar uma criança de um adulto. No entanto com o avanço que a mídia vem obtendo, verificamos que tem sido cada vez mais difícil educar as crianças, pois a televisão tem sido uma influência não muito bem salientada”, observou a psicóloga Danielle Azevedo.

Infelizmente, segundo ela, muitos pais não controlam os filhos, não têm o poder de agir naquilo que faz bem ou não, pois tudo se tornou ‘bonitinho’. O fato de trabalharem o dia inteiro é uma questão que também os impede de saber o que se passa em casa. “Muitos pais veem a televisão como um meio de acalmar o seu filho, sem se dar conta de que a televisão é uma divulgadora poderosa e de influência sobre a criança de hoje, entre elas, esse tipo de música”, observou.

A psicóloga destacou, porém, que não adianta só criticar e colocar a culpa na influência da mídia na educação das crianças. É preciso separar e conhecer as potencialidades que a televisão tem de favorável para a aprendizagem. Cabe aos pais atuarem nessa formação e conhecerem os programas que os filhos assistem, as músicas que estão ouvindo, analisando seus valores e ideais. “Isso é importante para tentar formar, a partir daí, um cidadão crítico. capaz de averiguar se tal programa traz algo de valor para a sua vida ou se tal música representa aquilo que o conduz, sendo os mesmos transmissores de valores da própria educação”, disse.

A importância do ‘não’ 

O poder da mídia de influenciar é capaz de provocar consequências na organização da sociedade. Alguns teóricos defendem que ela altera a percepção social e sua construção. “Ou seja, as experiências trazidas por ela influenciam, de forma decisiva, na formação das relações sociais e na maneira como o indivíduo estabelece sua conduta na sociedade”, destacou a psicóloga Danielle Azevedo.

“Como psicóloga, penso que o ‘não’ tem que estar presente a todo momento. Os pais precisam ter segurança de falar ‘não’ para o filho, porque a frustração faz parte do nosso desenvolvimento como ser humano. Portanto, é necessário que se estabeleçam filtros no contato das crianças com o consumo, para que elas não sejam colocadas à mercê da mídia, vulneráveis a esse bombardeio de informações”.

Ela explicou que as crianças menores de sete anos, por natureza, não conseguem distinguir realidade de fantasia. A televisão como vendedora de ilusão exerce influência e um domínio covarde sobre elas. A mídia, conforme a psicóloga, tem formado seres humanos mecanizados, desagregados de conceitos familiares, insensíveis, desumanizados, viciados, isolados do convívio social e contato humano, capaz de formar nestes indivíduos, uma imitação da ilusão vendida pela TV.

“A mídia também tem colocado na mente das pessoas uma condição de imitação e escravidão passiva; em que as mulheres seminuas existem para servir cerveja aos homens; em que os princípios de família e conduta sexual são desmoralizados; e em que a violência é sempre o ‘super star’, afinal de contas, sem emoção não tem audiência e o que realmente importa para a maioria das emissoras é o mercantilismo”, acrescentou.

Sequelas emocionais

“As sequelas emocionais podem ser as mais diversas possíveis. Ansiedade, isolamento social, problemas de sociabilidade afetiva, desinibição excessiva, deturpação de valores e conduta”, destacou Danielle Azevedo.

Ela explicou que, se há percepção de alterações de comportamento, a família precisa de ajuda psicológica. A intervenção terapêutica fará com que esses indivíduos reelaborem as questões que envolvem essas referências e valores.

“Mas, saliento que o papel dos pais, bem como a imposição de limites é de extrema importância para a construção de caráter dos filhos”, completou. 

Pais reprovam, mas crianças e adolescentes curtem

 Da geração que viveu os anos 80, a dona de casa Eva de Souza e Silva, e o segurança Monsueth Rocha Medeiros, têm três filhos: um menino de 15 anos, e duas meninas, uma de 17 e outra de apenas 7. Na casa deles, o estilo musical segue a linha da MPB e rock nacional. O casal lamentou, porém, que a mudança entre o que se ouvia naquela época e o que se escuta agora é drástica e só piorou.

“Nossos filhos ouvem pouco essas músicas de conteúdo que não aprovamos, mas já questionamos e até repreendemos. Orientamos para que não ouçam e explicamos que seus conteúdos trazem uma influência negativa. No entanto, não é fácil convencer”, declarou Eva.

“Chamo isso de lixo cultural, letras com sentido pejorativo. Eu gosto da boa música. Infelizmente, hoje, não temos como fugir dessa exposição. É um sucesso que dura pouco, mas creio que com esse nível, a tendência é piorar”, constatou Monsueth.

Fã do estilo 

A estudante Kayllane Silva, 15 anos, é fã das músicas que fazem sucesso entre meninos e meninas da sua idade. Ela não vê maldade no que ouve e, para a adolescente, o que importa mesmo é o ritmo que instiga a vontade de dançar.

“Nem presto muita atenção nas letras, mas sei que são pesadas. A maior influência, no meu caso, vem das amizades, colegas de escola, vizinhas que escutam, e a gente acaba gostando”, resumiu.

A situação preocupa a mãe, Josinete Silva Alexandre, que é evangélica. “São músicas letras que não acrescentam nada de bom. A mente dessas meninas amadurece antes do tempo. Nos bailes funk, essas músicas são uma forte influência negativa. Lá, rola de tudo e os pais são os últimos a saberem”, lamentou.

Preocupação permanente

“Às vezes, não quero acreditar no que estou vendo e ouvindo. Infelizmente, é uma realidade assustadora. Vejo a influência sobre cada criança no condomínio onde moro e não quero isso para meus filhos, ainda pequenos. Todos os dias, tento fazer o que posso para mostrar o que é certo e errado, tento fazer o melhor por eles, mas não é fácil”.

O depoimento é da confeiteira Sandra Felinto. Para ela, além da letra, tudo que se relaciona a esse universo incomoda e causa aflição. “A dança, então, meu Deus! São garotas, crianças ainda, simulando cenas de sexo no chão. É nojento, terrível”, constatou.

Para ela, as músicas mostram a realidade das adolescentes que se relacionam com rapazes mal intencionados. “Elas não têm senso e nem noção do perigo, se envolvem e se entregam a um mundo sem cor, com um triste final. E ainda causam aos pais e familiares muita tristeza, sem contar que estabelecem para si mesmas um futuro sem perspectivas”, analisou.

Bons conteúdos 

A estudante Larissa Cristina Santos, 14, e seu irmão Lucas Henrique Santos, 10, são evangélicos, filhos da psicopedagoga Meire Santos. Eles costumam ouvir música gospel, incluindo nomes como Anderson Freire, Rodolfo Abrantes e o pregador Luo. Embora tenham acesso a vários estilos na escola, através dos colegas, não se deixaram influenciar.

“Eu acho que essas músicas que a maioria das pessoas ouve por aí são um lixo. Não dizem nada. Além das evangélicas, gosto de música eletrônica, MPB”, declarou Larissa, que é fã de Tom Jobim e Caetano Veloso. Já Lucas, além das canções religiosas, costuma ouvir temas de filmes, especialmente de terror. Para a mãe, além da religião, ter acesso a boas influências desde cedo é fundamental para desenvolver nos filhos uma base musical com bom conteúdo.

“Não existe receita certa para evitar que as crianças tenham acesso a essas letras. O segredo, no entanto, está em acompanhar desde cedo os conteúdos que os filhos ouvem, além de orientar sempre”, completou Meire Santos.

*Texto de Lucilene Meireles, do Jornal CORREIO.

 

Fonte: PORTAL CORREIO.

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Gilson Alves
Gilson Alves
Radialista DRT: 1.743 - PB e Jornalista DRT: 3.183 - PB. Diretor Geral do Jornal A Página.

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