Retrospectiva: dinheiro solto e cartolas presos em ano difícil para Fifa e CBF

Retrospectiva: dinheiro solto e cartolas presos em ano difícil para Fifa e CBF
INFO Investigados da FIFA A (Foto: Globoesporte.com)

O pano usado para encobrir a saída do hotel Baur au Lac de um dos dirigentes presos em Zurique no dia 27 de maio deixou à mostra o que muitos tentavam esconder há bastante tempo. Fifa, Conmebol e CBF foram sacudidas em 2015 pela descoberta de vários esquemas de corrupção. Investigações de autoridades dos Estados Unidos, da Suíça e do Uruguai – além do trabalho do Comitê de Ética da própria Fifa – resultaram na detenção ou afastamento de cartolas que ocupavam os mais altos cargos nessas entidades.

Caíram Joseph Blatter, Jérôme Valcke, Michel Platini e vários outros. Como resultado do terremoto, tanto Fifa quanto Conmebol convocaram novas eleições, a serem realizadas nos primeiros meses de 2016. No Brasil, uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) no Senado que apura irregularidades na CBF foi criada em julho e prorrogada até meados de 2016.

A tranquilidade dos cartolas acusados de corrupção terminou quando a polícia da Suíça, a pedido das autoridades americanas, prendeu sete dirigentes a dois dias da eleição para presidente da Fifa. A investigação do FBI tem como alvo dirigentes de futebol da Conmebol e da Concacaf – além de empresários de marketing esportivo do continente – acusados de operar um vasto esquema de corrupção nas negociações dos direitos comerciais e de transmissão de torneios como a Copa América, a Taça Libertadores, a Copa do Brasil e as Eliminatórias da Copa do Mundo.

O caso corre nos EUA porque foram usados empresas e bancos americanos para movimentar dinheiro. Os principais colaboradores das autoridades americanas no caso são o empresário J. Hawilla, ex-presidente da Traffic, que assinou um acordo para devolver US$ 151 milhões e o ex-secretário-geral da Concacaf, Chuck Blazerque confessou receber subornos desde 1993. Outros que se declararam culpados e toparam colaborar são os ex-presidentes das federações de Chile e Colômbia, Sergio Jadue e Luis Bedoya.

Dos 14 dirigentes e empresários indiciados em maio, todos estão sob custódia: ou presos nos Estados Unidos ou em seus países de origem. Em dezembro, um novo indiciamento acusou mais 16 acusados de corrupção, formação de quadrilha, lavagem de dinheiro e outros crimes. Entre esses 30 nomes, estão os três últimos presidentes da CBF: Ricardo Teixeira, atualmente no Brasil, de volta após temporada nos Estados Unidos desde que saiu do comando da entidade, José Maria Marin, preso desde maio, na Suíça, extraditado para os EUA e aguardando julgamento em prisão domiciliar em Nova York, e Marco Polo Del Nero, que teve que se licenciar do cargo para se defender.

EFEITO DOMINÓ NA CONMEBOL E CBF
INFO Investigados da FIFA B (Foto: Globoesporte.com)

Com os três últimos presidentes da Conmebol e vários dirigentes envolvidos no escândalo, a entidade se viu obrigada a convocar eleições. O uruguaio Wilmar Valdez, um “novato”, assumiu a entidade de maneira interina até 26 de janeiro, quando será eleito um sucessor no poder para mandato de quatro anos.

Marco Polo Del Nero assumiu a presidência da CBF em abril. No mês seguinte, viu seu vice, José Maria Marin, ser preso na Suíça, e ordenou a retirada do nome do antecessor da frente do prédio da entidade, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro. Voltou para a capital carioca no mesmo dia e nunca mais saiu do país. Em julho, o senador Romário (PSB-RJ) recolheu assinaturas suficientes com seus colegas para criar a CPI que investiga a CBF. Em dezembro, Del Nero foi indiciado pelas autoridades americanas e passou a ser investigado pelo Comitê de Ética da FIFA

Acuado, passou a distribuir os cargos que ocupava. Indicou Fernando Sarney para o Comitê Executivo da Fifa; licenciou-se da presidência da CBF e pôs o vice Marcus Vicente para seu lugar. A confederação convocou uma eleição para preencher a vaga de vice que era de Marin, vencida pelo Coronel Antonio Carlos Nunes, da Federação do Pará, mais velho do que Delfim de Pádua Peixoto, de Santa Catarina, principal líder da oposição da Del Nero. Pelo estatuto da entidade, Marco Polo impediu, assim, que o adversário assuma o poder em caso de sua renúncia definitiva, garantindo a manutenção do controle da CBF pelos dirigentes da corrente atual.

A CPI do Futebol que está em andamento no Senado foi aberta em 14 de julho para apurar irregularidades do esporte no Brasil. pediu quebra de sigilo bancário e telefônico de diversos dirigentes, como Marco Polo Del Nero, Ricardo Teixeira e José Maria Marin. Em depoimento à comissão, Del Nero recusou todas as acusações que há contra ele no exterior e disse que não renunciaria. A comissão também pediu acesso aos contratos e movimentações financeiras da CBF e do Comitê Organizador Local (COL) da Copa do Mundo de 2014.

QUEDA DE BLATTER, PLATINI E VALCKE

O principal golpe no organograma da Fifa, contudo, partiu do seu próprio Comitê de Ética, que atua de forma independente. Joseph Blatter, presidente da Fifa, e Michel Platini, vice da Fifa e presidente da Uefa, foram banidos por oito anos de todas as atividades relacionadas a fuebol. O secretário-geral Jérôme Valcke foi suspenso provisoriamente enquanto seu caso não é julgado de maneira definitiva.

Os casos de Blatter e Platini se entrelaçam. O presidente da Fifa é acusado de ter feito um “pagamento indevido” ao vice, no valor de 2 milhões de francos. A desculpa foi uma “assessoria especial” prestada por Platini a Blatter entre 1999 e 2002. O pagamento, no entanto, só foi feito em 2011, o que levantou suspeitas. Banidos, os dois afirmaram que vão recorrer ao Tribunal Arbitral do Esporte.

Além disso, Blatter é alvo de uma investigação criminal na Suiça, por ter vendido direitos de transmissão das Copas de 2006 e 2010 para Jack Warner, da Concacaf, por valores muito abaixo dos praticados no mercado. O ex-presidente da Fifa teria vendido os direitos por US$ 600 mill, e Warner depois os revenderia por algo entre US$ 18 milhões e US$ 20 milhões.

Joseph Blatter, Michel Platini e Jerome Valcke Congresso na Fifa - AP (Foto: AP)
Joseph Blatter, Michel Platini e Jerome Valcke Congresso na Fifa – AP (Foto: AP)
O caso de Jérôme Valcke é diferente. Famoso por ter dito durante a preparação da Copa do Mundo de 2014 que os brasileiros precisavam de um “chute no traseiro” para atender as exigências da Fifa, o secretário-geral da entidade é acusado de ter participado de um esquema fraudulento de venda de ingressos para o torneio. Por meio de seus advogados, o dirigente declarou ser inocente e desapareceu.

Além de tudo isso, a Procuradoria Geral da Suíça conduz uma investigação sobre compra de votos para escolha das sedes das Copas do Mundo de 2018, na Rússia, e 2022, no Catar. A apuração levantou 120 transações bancárias suspeitas e apreendeu um grande volume de dados na sede da Fifa e nas residências de envolvidos.

A ELEIÇÃO NA FIFA

No dia 2 de junho, dias após a primeira leva de prisões de dirigentes, Joseph Blatter anunciou que não cumpriria o mandato para o qual fora eleito em 29 de maio. Eleições foram convocadas para o dia 26 de fevereiro, em anúncio que ficou marcado pelo protesto do humorista inglês Simon Brodkin, que fez chover dólares sobre o então presidente .

Blatter pretendia continuar no poder até a transição ao sucessor, mas acabou banido do futebol antes disso. O camaronês Issa Hayatou, de passado polêmico, assumiu como presidente interino.

O brasileiro Zico tentou se candidatar para a presidência da Fifa, mas não conseguiu o apoio necessário de cinco associações nacionais para viabilizar sua candidatura. Até setembro, o favorito para suceder Blatter era Michel Platini – que ficou impedido de concorrer ao ser suspenso provisoriamente e depois banido pelo Comitê de Ética da Fifa. Em seu lugar, a Uefa lançou o secretário-geral Gianni Infantino. Considerado favorito, concorre com quatro outros: o francês Jérôme Champagne, o príncipe da Jordânia Ali Bin Al-Hussein, o xeque do Bahrein, Salman Bin Khalifa Al Ebrahim, e o sul-africano Tokyo Sexwale.

 

Com informações Globo Esporte

Gilson Alves

Radialista DRT: 1.743 - PB e Jornalista DRT: 3.183 - PB. Diretor Geral do Jornal A Página.

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